Conexão com a Vida

Um dos segredos para estarmos conectados com a vida está no posicionamento interno que assumimos diante da realidade. No vídeo dessa semana, Eva Torres e Bruno Goulart explicam a importância do “concordar” com “tudo que é do jeito que é” como uma atitude quase “espiritual” para uma vida plena. No caminho para esse lugar de paz, está uma postura de humildade que se deixa tocar pelo que é, que não faz oposição, que não é arrogante e que, assim, pode abrir espaço para o fluir do amor.
Confira o vídeo e se deixe levar por esse movimento!

Carta de Bert Hellinger ao pai

“Dedico este livro a meu pai Albert Hellinger (1895-1967), com uma carta:

Querido papai,

Por muito tempo eu não soube o que me faltava mais intimamente. Por muito tempo, querido papai, você foi expulso de meu coração. Por muito tempo você foi um companheiro de caminho para quem eu não olhava porque fixava meu olhar em algo maior, como me imaginava.
De repente, você voltou a mim, como de muito longe, porque minha mulher Sophie o invocou. Ela viu você, e você me falou por meio dela.
Quando penso o quanto me coloquei muitas vezes acima de você, quanto medo também eu tinha de você porque muitas vezes você me batia e me causava dores, e quão longe eu o expulsei de meu coração e tive de expulsá-lo, porque minha mãe se colocava entre nós; somente agora percebo como fiquei vazio e solitário, e como que separado da vida plena.
Porém, agora você voltou, como que de muito longe, para minha vida, de modo amoroso e com distanciamento, sem interferir em minha vida. Agora começo a entender que foi por você que, dia a dia, nossa sobrevivência era assegurada sem que percebêssemos em nosso íntimo quanto amor você derramava sobre nós, sempre igual, sempre visando o nosso bem-estar e, não obstante, como que excluído de nossos corações. Algumas vezes lhe dissemos como você foi um pai fantástico para nós?
Você foi cercado de solidão e, não obstante, permaneceu solicíto e amoroso a serviço de nossa vida e de nosso futuro. Nós tomávamos isso como algo natural, sem jamais honrar o que isso exigia de você.
Agora me vêm lágrimas, querido papai. Eu me inclino diante de sua grandeza e tomo você em meu coração. Tanto tempo você esteve como que excluído do meu coração. Tão vazio ele estavam sem você.
Também agora você permanece amigavelmente a uma certa distância de mim, sem esperar de mim algo que tire algo de sua grandeza e dignidade. Você permanece o grande como meu pai, e tomo você e tudo que recebi de você, como seu filho querido.
Querido papai,
Seu Toni (assim eu era chamado em casa).”

__ Bert Hellinger, em “As Igrejas e o Seu Deus”.

Morrer

“Todo ser vivo morre, enquanto vive. Ele só pode viver porque, em diversos níveis, algo morre nele. Um animal só sobrevive porque come a planta, que assim, morre. E um outro animal só sobrevive se mata e devora aquele.

Também em nós, para que a vida continue, algo precisa estar sempre morrendo, abrindo espaço para algo novo, talvez também para algo maior.

O mesmo acontece no decurso da vida. O que veio antes cede lugar ao que cede lugar ao que vem depois: a infância à juventude, a juventude à união estável, à paternidade ou maternidade à responsabilidade daí decorrente. A responsabilidade cessa quando os pais conferem independência aos filhos. Finalmente, nossa vida cede lugar à morte e ao que, talvez nos aguarde depois dela.

Jesus, na Bíblia, resumiu isso numa parábola: se o grão de trigo não morre, ele não dá fruto.

Por conseguinte, o morrer pertence, desde o início, à vida. É um pressuposto da vida, uma parte dela. Por isso, só pode viver aquele que aceita morrer e que, finalmente, morre.

Para quem entende e vive isso, a morte é apenas uma continuação do morrer e, simultaneamente, uma continuação da vida; não, talvez, da minha própria vida, mas da vida que se renova a cada morte e que, porque morre, também permanece.

__ Bert Hellinger, em “Pensamentos a Caminho”.

O embotamento

Um circo adquiriu um urso polar. Como só precisavam dele para exposição, ficou trancado num carro, onde o espaço era tão estreito que o urso não podia virar-se. Só dava dois passos para frente e dois para trás.

Passados muitos anos, tiveram pena dele e o venderam para um zoológico. Ali ele dispunha de um amplo espaço para se movimentar, mas continuou dando somente dois passos para frente e dois passos para trás. Um outro urso lhe perguntou: “Porque você faz isso? Ele ele respondeu: “Porque fiquei muito tempo preso num carro estreito”.

Nossa prontidão para olhar é impedida, com frequência, por sentirmos como obrigação e inocência o que é mau para nós e, como traição a uma ordem e culpa, o olhar que aponta soluções. Então se substitui o olhar por uma imagem interna, e o que já passou atua como se ainda estivesse presente.

Por vezes, a imagem interna nasce do simples ouvir dizer e cria uma ordem baseada somente na imaginação. Então se substitui o olhar pelo ouvir,  a verdade pelo arbítrio e o saber pela crença.

__ Bert Hellinger, em “No Centro Sentimos Leveza”.

OS LIMITES DA INOCÊNCIA

Da série – Um NOVO OLHAR para a mesma vida – de Evanilde Torres

No diálogo abaixo, que narra o desconforto de um cliente sobre o destino de seu pai, Bert Hellinger mostra que muitas vezes somos imbuídos pela nossa alma de agir de forma tal, que sejamos vistos como “agressores” ou “perpretadores do mau” pelo senso comum. Entretanto, o destino reserva diferentes tarefas para cada ser humano. E é sempre possível um NOVO OLHAR para o que comumente julgamos como errado ou ruim.

Confira!

Jonas: Nos últimos dez anos fui me aproximando de meu pai e descobri um amor maravilhoso. A partir dessa confiança ele me contou que durante a guerra, quando tinha vinte e poucos anos, deixou-se colocar, durante três semanas, como vigia diante de um campo de concentração. Pensar nisso, para mim, é o mesmo que caminhar sobre o fio de uma espada, e quero fugir dessa pensamento.

Bert Hellinger: Não é verdade que ele deixou-se colocar! Teve de colocar-se!

Jonas: Não posso aceitar meu pai nesse lugar.

Bert Hellinger: Você não tem o direito de julgar isso. Há algum tempo, assisti a uma reportagem de televisão. Uma poeta ioguslava queria, de qualquer maneira, que se levantasse um monumento a um soldado alemão. Ele tinha sido destacado por um pelotão de fuzilamento para executar um grupo de combatentes da resistência, mas recusou-se a apontar sua arma, passou para o lado dos combatentes e deixou-se fuzilar com eles.

Agora o que se pode dizer dele? Seu gesto foi bom ou mau? O que foi que ele fez? Esquivou-se ao seu próprio destino. Ele poderia ter atirado, dizendo a si mesmo: “Estou enredado no meu grupo e eles no seu. O destino se pôs de tal forma que sou eu quem tenho que fuzilá-los e não eles a mim. Eu digo sim a esse destino, sejam quais forem as consequências”. Essa atitude teria grandeza. Imaginar que escolhendo morrer posso escapar de meu destino, é uma solução fácil. Você precisa levar em conta que seu pai estava numa situação semelhante e isso não diz respeito a você. Você não tem o direito de achar isso nem bom, nem mau. Nem uma coisa, nem outra.

Jonas: Estou vendo mais claro!

Bert Hellinger: Então você também tem grandeza e respeito pelos poderes do destino.

__ Bert Hellinger, em “Ordens do Amor”