Os Jogadores

Experimentamos a consciência, às vezes, como se ela fosse um indivíduo único. Entretanto, na maioria dos casos, ela mais se assemelha a um grupo onde diversos representantes perseguem diferentes objetivos, com a ajuda de diferentes sentimentos de inocência e culpa, e procuram se impor de diferentes maneiras. Nisso, eles se apóiam ou se questionam mutuamente, pelo bem do todo; não obstante, mesmo quando se contrapõe, servem a um ordem superior. À semelhança de um general que, em diversas frentes, com diferentes tropas, em terrenos diversos, com diferentes meios e táticas, busca diferentes êxitos, essa ordem faz com que, pelo bem de um todo maior, em cada frente só se obtenham êxitos parciais. Por essa razão só se consegue a inocência em parte.

Assim na maioria das vezes, culpa e inocência comparecem juntas. Quem procura agarrar a inocência toca também a culpa, e quem é inquilino da culpa encontra a inocência como sublocatária. A a culpa e a inocência também trocam trajes com muita frequência, de modo que a culpa vem vestida de inocência, e vice-versa. Então as aparências enganam e só os efeitos mostram o que é real.

Vou lhes contar uma história a respeito.

Os jogadores

Eles se apresentam como adversários. Então se sentam frente a frente e jogam no mesmo tabuleiro, com diferentes figuras e complicadas regras, lance por lance, o mesmo jogo real.

Ambos sacrificam a seu jogo, diversas figuras e tensos se mantém em xeque, até que o movimento cessa. Quando não há mais saída, a partida termina. Então trocam de lado e de cor e recomeça o mesmo jogo, apenas uma outra partida.

Mas quem joga muito tempo, e muitas vezes ganha, e muitas vezes perde, torna-se, em ambos os lados, um mestre.

__ Bert Hellinger, em “No Centro Sentimos Leveza”.

Sobre o Destino: o Amor Fatal

O destino vai ao nosso encontro com todos os seres humanos com os quais nos relacionamos. Cada um fica sendo para nós, o destino. E nós para ele. Portanto, amor fatal significa que eu amo cada destino que vem ao meu encontro através do outro, porque me enriquece através dele, me desafia e me toca, como também o destino que enriquece o outro através de mim, o desafia e muitas vezes também o toca. Através disso todo encontro com outros seres humanos fica sendo mais do que um simples encontro entre ele e eu. Torna-se um encontro de destinos, que atuam através dele e através de mim: que causa felicidade ou dor, a serviço do crescimento ou da limitação, dando a vida ou tirando-a.

Portanto, o amor fatal é o último amor, que exige o último, que dá o último e toma o último. Nele crescemos para alem de nós.

O que isso significa individualmente?

Se um outro do meu ponto de vista, quer fazer algo mau, terrível, não importa de qual maneira, a minha primeira reação a isso é que eu quero fazer algo de mau para ele e penso numa compensação, no sentido de vingança. Mas se olho para ele como sendo levado pelo seu destino e reconheço que este destino se torna também o meu destino através dele, então não me coloco mais perante a ele apenas como um ser humano. Eu encaro o destino e o amo. Nesse momento me submeto a um poder fatal, me deixo tocar por ele, fico purificado das coisas mesquinhas, fico tocado e fico no amor em tudo.

Inversamente posso me tornar para o outro, de alguma forma, em destino que fere, que o limita e que o obriga à despedida e separação. Então resisto à sensação que age por egoísmo ou desejos maldosos, porque estou entregue ao destino dele e meu. Eu também preciso amar este destino como ele é e fico assim através desse destino puro e com a mesma validade.

Quem ama seu destino assim, seu próprio e o do outro e sabe que ele sempre se tornará em próprio destino para ele para mim, está em sintonia com tudo como é. Está tanto conectado quanto direcionado porque é um amor fatal, o seu amor tem grandeza e força.

__ Bert Hellinger, em Ordens da Ajuda

Separação do Casal à luz das Constelações Familiares

Uma separação – por mais consciente e bem resolvida sempre traz ao casal a dor da parceira desfeita. Quando há filhos na relação, a forma como o homem e a mulher procedem diante do fato, coloca as crianças num processo mais ou menos traumático. Sobre o assunto, nós separamos algumas pontuações de Bert Hellinger, contidas na obra “Ordens do Amor”, que podem ajudar na condução do movimento de separação do casal.

“Tomem como princípio que as separações ocorrem sem culpa. São via de regra, inevitáveis. Quem procura pelo culpado ou pela culpa, em si ou no parceiro, recusa-se a encarar o inevitável. Procede como se pudesse ter havido uma outra solução, se…E não é verdade. Separações são consequências de envolvimentos, cada um está enredado a sua maneira. Jamais procuro saber quem ou que poderia ser o culpado pelo fato. Digo a eles que acabou e que agora enfrentem a dor por ter acabado, apesar das boas intenções iniciais. Quando enfrentam a dor, conseguem separar-se em paz e resolver de comum acordo o que precisa ser resolvido. Cada um fica livre para o próprio futuro”.

“Quando algo dá errado entre os pais, os filhos buscam a culpa em si mesmos. Preferem ser culpados a atribuir a culpa aos pais. Então ficam aliviados quando os pais lhes dizem: “Nós, como casal, decidimos nos separar. Mas continuamos a ser seus pais e vocês nossos queridos filhos”.

“Quando os pais se separam e os filhos perguntam o porque deve-se dizer a eles: “Isso não diz respeito a vocês. Nós nos separamos mas continuamos sendo seus pais. Pois a relação de paternidade ou de maternidade é inseparável. Em casos de divórcio, acontece com frequência que os filhos são confiados a um dos pais e tirados do outro. Ora, os filhos não podem ser tirados dos pais. Mesmo após o divórcio, estes mantém integralmente os seus direitos e deveres de pais. O que se desfaz é a relação de parceria. Da mesma forma, não se deve perguntar aos filhos com quem querem ficar. Caso contrário, serão forçados a decidir entre seus pais, a favor de um e contra o outro. Isto não se pode exigir deles. Os pais devem combinar entre si e então dizer-lhes como isso se fará. Mesmo que os filhos protestem não precisaram decidir-se entre os pais”.

“Após uma separação, o melhor para o bem dos filhos é que o casal continue a cultivar nas crianças o amor original que inicialmente sentiu pelo parceiro, seja no que for que ele tenha se transformado depois. Volta-se ao início do relacionamento que, para a maioria dos casais foi um tempo abençoado, um tempo de intimidade. Com essa lembrança é possível contemplar os filhos, mesmo após a separação”.

Honrar e Agradecer

Tomar o que me é dado
Segurá-lo com respeito nas mãos,
Acolhê-lo dentro de mim,
Em meu coração,
Até que percebo internamente:
Agora é uma parte de mim.Agradecer é também:Aplicar o que me foi dado
E se tornou uma parte de mim
Numa ação que permita a outros
Alcançar também
O que me enriqueceu

Só então o que me foi dado
Alcança sua plenitude.”

“Agradecer me torna grande, pois quando agradeço tomo algo de outros como um presente. Isso me enriquece, porque o recebo. Ao mesmo tempo, o que recebo agradecido não pode ser perdido por mim. O agradecimento me permite conservá-lo e aumentá-lo. Ele atua como o sol e a chuva morna atuam sobre uma planta jovem. Ela floresce.
 O agradecimento une e faz com que nossos relacionamentos floreçam pois, de bom grado, se dá a quem agradece. Por seu lado, quem recebe agradecido torna-se interiormente aberto e não pode deixar de dar e passar adiante o que recebeu com graditão. Assim, o agradecimento nos torna felizes e enriquece a ambos.
Quem agradece, honra o que lhe foi dado e, simultaneamente, honra aqueles que lhe presentearam. Assim, o agradecimento engrandece a todos: a mim, a dádiva e ao doador.”
__ Bert Hellinger, em “Pensamentos a Caminho”.

A Volta

Alguém nasce dentro da sua família, da sua pátria, da sua cultura. Desde criança ouve falar de seu modelo, professor e mestre, e sente um desejo profundo de tornar-se e ser como ele.

Junta-se a pessoas que têm o mesmo propósito, disciplina-se por muitos anos e segue seu grande modelo, até tornar-se igual a ele – até que pensa, fala, sente e quer como ele.

Entretanto, julga que ainda falta alguma coisa. Assim, parte para uma longa viagem, buscando transpor talvez uma última fronteira na mais distante solidão. Passa por velhos jardins, há muito abandonados, onde apenas continuam florescendo rosas silvestres. Grandes árvores dão frutos todos os anos, mas eles caem esquecidos no chão porque não há quem os queira. Daí para frente começa o deserto.

O viajante é logo cercado por um vazio desconhecido. Para ele, todas as direções se confundem, e as imagens que esporadicamente surgem diante dele são logo reconhecidas como vazias. Caminha ao sabor dos implusos. Quando já tinha perdido, há muito tempo, a confiança nos próprios sentidos, avista diante de si a fonte. Ela borbulha do sol e nele imediantamente se infiltra. Porém, até onde a água alcança, o deserto se converte num paraíso.

Olhando em volta, o viajante vê dois estranhos se aproximarem. Tinham procedido exatamente como ele. Seguiram seus próprios modelos até se tornarem iguais a eles. Partiram igualmente para uma long viagem, buscando transpor talvez uma última fronteira , na solidão do deserto. E, como ele, encontraram a fonte. Juntos, os três se curvam, bebem da mesma água e acreditam que estão perto de atingir a meta. Depois, dizem seus nomes: “Eu me chamo Gautama, o Buda”. “Eu me chamo Jesus, o Cristo”. “Eu me chamo Maomé, o Profeta”.

Então chega a noite, e acima deles brilham as estrelas, como sempre briharam, extremamente distantes e silenciosas. Os três se calam. Um deles sabe que está mais próximo do grande modelo do que jamais estivera antes. É como se pudesse, por um momento, pressentir o que Ele sentira quando conheceu a impotência, a frustração, a humildade. E como deveria sentir-se se conhecesse igualmente a culpa. E julgou ouvi-Lo dizer: “Se vocês me esquecessem eu teria paz”.

Na manhã seguinte ele retorna fugindo do deserto. Mais uma vez, seu caminho o leva por jardins abandonados, até que chega a um jardim que lhe pertence. Diante da entrada está um velho, como se estivesse esperando por ele: O velho diz: “Quem vai tão longe e encontra, como você, o caminho de volta, ama a terra úmida. Sabe que tudo o que cresce, morre, e, morrendo nutre a vida”. Sim, responde o outro, “eu concordo com a lei da terra”. E começa a cultivá-la!

Texto “A Volta”, extraído da obra “No Centro Sentimos Leveza”, de Bert Hellinger