Em sintonia com os pais

Os pais não possuem nenhuma falha como pais, pois ao passar a vida adiante, fizeram tudo certo. Não houve nenhum erro envolvido nisso, ou seja, em relação a esse ponto essencial todos os pais são perfeitos.

Olho para essa perfeição e respeito como sendo maior que tudo. O que os pais fizeram, além disso, ou onde erraram não é tão importante. Aqui outros podem substituí-los, porém, naquilo que fez com que se tornassem pais, ninguém poderia tê-lo feito melhor.

Muitos que reclamam dos seus pais olham para questões secundárias e não para o essencial. Em todas as situações onde alguém critica seus pais, está diminuindo o essencial dentro de si. Fica mais estreito, menor, limitado. Quanto mais o fizer, mais limitado fica.

Ao contrário, se alguém olha para o essencial e toma a vida em sua plenitude e pelo preço total que custou aos seus pais e que lhe custa, essa pessoa pode enfrentar todas as situações.

 

Trecho da obra de Bert Hellinger, O Amor do Espírito

Amor e força

“O grande amor tem força e é duro. O amor barato é macio, não suporta o sofrimento. Às vezes podemos observar isso aqui. Alguns ficam profundamente tocados pelo trabalho, também as pessoas do público começam a soluçar. Depois, alguém que não aguenta a situação vai até essas pessoas e as consola. Não as consola, por necessitarem de consolo, consola-as porque ele mesmo é que precisa ser consolado. Esse amor é fraco, interfere na alma dos outros sem respeito por aquilo que serve à sua alma. Temos que aprender a suportar a dor dos outros, sem interferir.

Na Bíblia existe um bom exemplo disso. Jó foi espancado por Deus. Todos seus filhos morreram. Coberto de feridas, ele estava sentado num monte de lixo. Depois vieram seus amigos para consolá-lo. O que fizeram? Sentaram-se a certa distância dele e durante sete dias não disseram uma só palavra. Isso foi amor com força”.

 

Trecho extraído do livro “O Amor do Espírito”, de Bert Hellinger

Gratidão pelo passado traz dignidade no presente

Somos seres realmente complexos. Dentro das várias gavetinhas de nossa consciência há espaços leves e outros nem tanto. Tem canto que dá para fatiar a escuridão, de tão denso. Tem partes bem ventiladas, aderentes às nossas crenças, que nos fazem ficar em paz. Assim, alternadamente, em dias de luz e sombra, leves e pesados, ficamos quase empatados. E não há quem já não tenha se perguntado sobre como abrir os espaços da alma para fazer fluir melhor a vida.

 

À luz de Bert Hellinger, a terapeuta Evanilde Torres, pontua: “Não é uma regra geral, mas dentro da nossa maluquice, quando estamos de consciência leve, é bem possível que também estejamos equivocados”. E explica: “para realmente somarmos e sermos útil à vida, é preciso mudar o “status quo”. E muitas vezes isso significa agir diferente daquilo que percebemos como certo. Eva lembra que, na visão de Hellinger, certo e errado são bem diferentes de bom e mal. Esses conceitos que transitam pela consciência e reverberam pelo ser, se relacionam com as experiências de nosso sistema de origem, nossa família.

 

“E para não trairmos nossas origens, viramos mártires, entramos em sofrimento, em sacrifício pelo sistema”, diz Evanilde. Dentro da abordagem de Hellinger, agir diferente do esperado, o “trair” significa arriscar o pertencimento no grupo. “Em algum momento de nossa existência já nos sentimos assim. Traímos nosso padrão, e ficamos com a consciência pesada”, conta Eva. Mas segundo ela, essa consciência pesada tem um efeito curador. “Porque faz com que sejamos melhores, faz com que o nosso sistema se movimente para frente, em direção à vida”, explica.

 

Para ser realmente efetivo, também esse movimento que nos coloca em consciência pesada não pode ser rebelde, pelo contrário, é humilde. “É um agradecimento ao que já se foi com boas vindas ao novo movimento. Tenho um sentimento de gratidão pelo passado, que me faz agir diferente, me movimenta e através dele faz com que me sinta digna e inteira no novo”, completa.

Imagina-te como essa mulher!

 

Imagina uma mulher que acredita que é certo e bom ter nascido mulher.
Uma mulher que honra a sua experiência e conta as suas histórias.
Que se recusa a carregar os pecados dos outros no seu corpo e vida.

Imagina uma mulher que confia nela própria e se respeita.
Uma mulher que escuta as suas necessidades e desejos.
Que vai ao seu encontro com ternura e graça.

Imagina uma mulher que reconhece a influência do passado no presente.
Uma mulher que caminhou através do seu passado.
Que se curou ao entrar no presente.

Imagina uma mulher autora da sua própria vida.
Uma mulher que age, toma iniciativa e se move pelos seus próprios meios.
Que se recusa a render, senão ao seu verdadeiro ser e à sua voz mais sábia.

Imagina uma mulher que nomeia os seus próprios deuses.
Uma mulher que imagina o divino à sua imagem e semelhança.
Que desenha uma espiritualidade pessoal para reger a sua vida diária.

Imagina uma mulher apaixonada pelo seu próprio corpo.
Uma mulher que acredita que o seu corpo lhe basta, assim como está.
Que celebra os seus ritmos e ciclos como um recurso admirável.

Imagina uma mulher que honra o corpo da Deusa no seu corpo em mudança.
Uma mulher que celebra a acumulação dos seus anos e da sua sabedoria.
Que se recusa a usar a sua energia vital a disfarçar as mudanças no seu corpo e na sua vida.

Imagina uma mulher que valoriza as mulheres na sua vida.
Uma mulher que se senta em círculos de mulheres.
E que é recordada da verdade sobre si própria quando dela se esquece.

Imagina-te a ti como esta Mulher.

Carta para Mônica

Amiga, em um dia tão especial como este, não poderia deixar de escrever para você.

Penso que você sabe do que estou falando…. Os místicos e as pessoas ligadas às dimensões mais sutis estão dizendo que hoje nosso planeta recebe um quantum de energia que mudará substancialmente nosso padrão vibracional. Dizem também que um dos lugares que melhor absorverá este fenômeno é justamente o lugar onde “coincidentemente” eu estou: BARILOCHE!

Ai, ai…amiga, não sei se isso é verdade, mas algo dentro de mim diz, ou melhor, algo dentro de mim grita que esta cidade é um lugar especial – se eu quiser ser modesta na qualificação. Um lugar abençoado – se eu quiser ser realista! Além de linda, esta cidade é diferente. Cheguei há três dias e não me canso de contemplar e ficar extasiada com o azul do céu contrastando com o branco brilhante da neve que cobre o topo das montanhas lindas e imponentes. Tenho algumas fotos para mostrar! Apesar de achar, querida amiga, que nenhuma lente pode ser fiel ao espetáculo que meus olhos incessantemente registram!

Bem, acho que você já percebeu que estou super feliz e realizada por ter escolhido passar este mês por aqui! Minha experiência com os queridos hermanos está sendo muito gratificante. Já conheci, além de lugares incríveis, cada figura interessante! Como resultado desses encontros, entendi algo a meu respeito: viajo para visitar as pessoas, muito mais que os lugares, já que os lugares são feitos e mantidos pelas pessoas, não é mesmo? Gasto horas observando e me deliciando com os anônimos ao meu redor e vou aprendendo que meu interesse e boa percepção sobre as pessoas, faz com que elas me reconheçam como alguém que pode ser incluído. Nas situações mais diversas, isto tem acontecido.

Foi justamente isto que ocorreu quando cheguei em Neuquén, também na Patagônia Argentina: no 1º momento, explicando à recepcionista do local do evento que vim participar que não me comunicava bem em Castelhano, fui ouvida por uma colega do curso, Verônica. Ela adora o Brasil e fala Português belamente eimediatamente me adotou. Em outro momento falo mais sobre ela e como me ajudou a contornar uma situação um tanto quanto inusitada que vivi na primeira noite hospedada na pousada. Algo inusitado, mesmo!

Verônica não somente cuidou de mim, mas me incluiu de uma forma tão despretensiosa que me emocionou. Foi com ela que entendi o ditado “HACER EL BIEN SIN MIRAR A QUIEN” e percebi que fazer o bem, em muitas instâncias, pode se limitar a dar à outra pessoa somente um bom olhar. Não há necessidade de atitudes grandiosas ou elaboradas, basta um olhar para o outro, um olhar com substância, preenchido, recheado… Aquele olhar que traz conforto imediato. Isso faz um bem! Aquele tipo de bem que é reconhecido por cada pedaço do nosso corpo, cada célula, sabe?! Ela me olhou assim e com isso ganhou um lugar aquecido no meu coração.

Como se não bastasse, me levou para conhecer a mãe, Graciela e, aí, minha maior surpresa! Graciela foi muito amável e simpática, especial no trato comigo, mas a mais surpreendente característica da mãe da minha amiga, aprendi quando cheguei à casa dela! Isso, quero lhe contar em detalhes, amiga.

Um sobrado. Por fora, nada especial. Uma edificação convencional, antiga. Por dentro… Ah! Ali, sim, a surpresa. Quando fui subindo as escadas o som de uma música maravilhosa foi tomando conta de mim e o cheiro de uma casa acolhedora despertou minhas lembranças infantis. Casa de tia, de avó, de madrinha, não sei…fui tocada por algo que tomou conta da minha alma, antes mesmo de eu entrar no pequeno apartamento. Quando entrei na sala, meus olhos se encheram de imagens e detalhes a serem cuidadosamente analisados, avaliados, sorvidos. Essa visão inicial desceu automaticamente para o meu coração e lá ficou registrada para sempre. Parecia que estava dentro do cenário da Amélie Poulain. Cores, objetos de decoração, móveis antigos, flores e aquela música tocando.

Meus olhos se detiveram em vários cantos daquela sala: a poltrona verde ladeada por um pequeno, mas imponente abajur, tinha as marcas do uso constante. Um elefante de cristal de costas para a porta de entrada, um Buda entalhado em madeira e um anjo de porcelana sobre uma pequena prateleira pareceram, cada um a seu tempo, me sussurrar um segredo. A simpática cortina de contas transparentes separando a sala da cozinha captou meu olhar e minha atenção por breves, no entanto, infinitos segundos. O livro aberto sobre a mesa redonda coberta por uma toalha de renda e as cadeiras de espaldar alto…três cadeiras.  Detalhe que fez meu coração palpitar em descompasso. Perguntei-me: “Porque três cadeiras em volta de uma mesa planejada para quatro?” Minha mente curiosa e detalhista se fazendo presente, claro.

Nada ali era moderno ou novo, tudo com marcas do tempo, do uso. Marcas de uma escolha, de um gosto…. Senti olhando para aquilo tudo que já era quase capaz de descrever a dona daquela casa quando meu olhar atento parou sobre uma foto em que Graciela sorria orgulhosa entre as três filhas. Minha impressão inicial de que juntando tudo que via, já fosse capaz de conhecer a moradora daquele lugar se consolidou – não eram simples objetos ou móveis – eram, por assim dizer, dados biográficos! Registros de uma vida que não fora simplesmente vivida. Parecia que ali morava alguém apta a degustar a vida. Senti, poderia apostar naquele instante, que ali havia alguém que vivera a vida com sabedoria e entusiasmo.

Olhei ao meu redor, procurando pela dona daquilo tudo e ela não apareceu! Esperei, enquanto minha amiga ajeitava compras que havia trazido. Contendo minha curiosidade, dediquei-me a olhar atentamente ao meu redor e percebi sobre uma mesinha de canto, algo que me lembrou um altar. Ali havia um pequeno vaso com flores amarelas e a foto de uma jovem. Reconheci os olhos presentes também na outra foto. Lindos e sorridentes olhos verdes fitavam-me. Alegrei-me e entristeci-me mutuamente, se isto é possível, pois junto à foto havia um cartão: “Querida filha, até breve. Descanse em paz.” Aquilo explicava as três cadeiras e minha sensação de coração em descompasso.

Recebi a informação de que eu estava em contato com algo especial que esperava para ser reconhecido e constatado. Eu não era capaz de saber o que acontecia ali, mas algo se passava naquela sala.

Quando Verônica retornou, não me contive e perguntei pela mãe dela. Ela informou-me que Graciela não estava…. Como assim? E, esta canção? Se ela não está, quem está aqui, quem ouve esta canção? Resposta: ninguém! “Minha mãe tem um grande interesse por música, e criou o hábito de sempre deixar algo tocando quando se ausenta.” Recebi aquela informação com interesse. Ninguém ouvia, mas a música enchia de vida o ambiente da casa vazia. Vazia de pessoas, cheia de vida, no entanto! Confirmei naquele instante que conheceria alguém especial e não deixaria de questioná-la sobre canções que são deixadas para encher de vida, casas vazias!

E, foi isso que fiz! Quando Graciela chegou perguntei sobre o hábito e ela me explicou com muita simplicidade: “Adoro ouvir música e quando saio deixo sempre algo tocando.” Percebendo meu olhar e semblante não satisfeitos, continuou: “Faço isto, por uma razão muito especial: no andar de baixo, funciona uma sala mortuária. Então, deixo a música para equilibrar o ambiente e ajudar aos frequentadores do andar de baixo a não caírem no abismo do desespero ocasionado pela nossa falta de preparo diante da morte.”  Ali, há sempre alguém sendo velado, morto, inerte, tristeza, lágrimas, dor, saudade….

Levei um susto! Ela estava me dizendo que divide o endereço com um casa funerária? Sim, estava! Graciela em cima, mortos, saudade e dor em baixo!

Pude entender naquele momento o clima solene que a canção que ouvi quando cheguei instalava naquela casa! Era, sem sombra de dúvida, uma canção que não chegava simplesmente aos ouvidos, mas entrava por eles, passava por todas as minhas células e estacionava no meu coração, estacionava ali, deixando durante sua passagem uma marca em todos as instâncias do meu ser. Uma marca profunda lembrando a seriedade da vida e da morte. Ou seria uma marca profunda lembrando a leveza da morte e da vida? Ambas marcas, talvez, pois parecia cada vez com mais clareza, que a linha que separa a vida da morte é tão tênue que a seriedade e a leveza das duas também se confundem quando minha mente, corpo e alma se abrem para a possibilidade de deixar o que é se manifestar em mim e em tudo ao meu redor.

Aquela casa, junto com sua dona, o altar em homenagem à filha morta e a canção deixaram-me a refletir por horas e me pus a imaginar o efeito de um gesto tão simples, talvez iniciado por impulso, que vai, no entanto ganhando sentido até o ponto de modificar com sutileza a atmosfera de um ambiente.

Já voltei várias vezes à casa de Graciela, ao endereço dividido com a sala de ritos fúnebres e cada vez mais me surpreendo com a capacidade transformadora da música sempre a tocar. Nunca uma canção para disfarçar a dor que a finitude traz, mas uma canção capaz de trazer quem a ouve para o aqui e o agora, para o instante, de colocar o ouvinte em sintonia com o presente e ser capaz, então, de usufruir tudo que se apresenta: vida e morte, amor e dor.

Well, amiga, acho que fui capaz de deixar você saber por onde andam minhas reflexões nestes dias de ausência e silêncio. Foi por estes caminhos que andei: sobre a linha muito frágil que separa os extremos opostos, tão frágil que quase junta aquilo que entendemos separados. Reflexões sobre a grandeza dos pequenos gestos e os cuidados delicados de quem atua no anonimato. Pensamentos cada vez mais constantes sobre a invisibilidade dos mortos e a presença marcante daqueles que já se foram fisicamente. Considerações a respeito dos aprendizados práticos e rápidos quando estamos atentos e das repercussões desses aprendizados em nossas vidas, da simplicidade de quem não pretende muito e nem tem a esperança de grandes revoluções. Tenho também constatado a utilidade de deixar o conhecido para aventurar-me naquilo que ainda é um mistério para mim, na grandeza dos pequenos gestos e na infindável necessidade de deixar-me ser vista por diferentes olhos e de olhar para diferentes faces, pois em ambas perspectivas aprendo e ganho muito.

Já começo a planejar minha próxima viagem. Quer saber para aonde? Digo na volta! E, conte mais uma vez com meu convite. Definitivamente, não dá para ficar parada com um mundo tão lindo e rico a ser desvendado.

Despeço-me saudosa, mas nutrida! Aliás, esqueci de mencionar algo: em todas as minhas visitas à Graciela, comi empanadas deliciosas, feitas e vendidas na loja em frente ao sobrado. Um achado tão precioso quanto às canções no cenário de Amélie.

Até a volta, querida!

Não esqueça de ouvir a canção que envio em anexo.

Beijo

Amor

Eva